Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009
Stress de Guerra

António, quando acordou, somente se lembrava do tempo de guerra. Tomé, escriturário, foi enfermeiro nas urgências do Hospital Militar de Luanda. Domingos, sabe que o Américo foi para o Céu. Manuel, sonha com os gritos das pessoas que fugiam da aldeia quando disparavam. José Rosa, sente que o ensinaram a matar com as mãos. José Silva, traz consigo as palavras do amigo quando morria a seu lado. Rodrigo treme, fica sem voz, e pouco diz. Talvez pouco consigam dizer. Escondem palavras num olhar quase sempre vermelho, húmido. São histórias de quem sofre de Stress de Guerra.

 

 

Nesse início de Dezembro frio de 2001, António Dias recuou no tempo. Quando acordou, embora mantivesse os 50 anos de vida, recordava-se somente do tempo de guerra. Todo o seu mundo era diferente e a realidade existia antes de 1974...

 

 

Tomé, que esconde o nome verdadeiro, quando foi chamado para ir para Angola, era escriturário. Por azar, foi escolhido para enfermeiro. Curso feito em Coimbra, partiria para o banco das urgências do Hospital Militar de Luanda. «As pessoas chegavam ao banco desfeitas, sem braços, sem pernas». Tomé é nervoso, sempre a esquecer-se das coisas, irrequieto. Para além de trabalhar nas urgências, e por falta de enfermeiros, ajudava no bloco operatório. «Transtornavam-me operações à cabeça, amputações, sentir o peso da perna solta do colega». Calhou-lhe um pouco de tudo, «até ajudar nas autópsias».
Dezoito meses nessas imagens. Quando chegou, continuou a trabalhar como escriturário. Apercebia-se que tremia muito, tinha dificuldades em escrever, enervava-se com facilidade. «Fiquei agressivo, ansioso, uma pessoa está aqui e quer estar ali, e se estiver ali quer estar aqui. Entro em pânico por tudo e por nada. Há situações que não consigo controlar». A esposa, que o conhecera aos 14 anos, dizia que «estava maluco. Sem motivos nenhuns, havia discussões do outro mundo. Ameacei-a com uma faca, parti a porta do quarto com a cabeça. A minha filha assistia a tudo». Como Tomé tinha posto de lado a ideia de ir ao médico, pois nunca admitiu que estava doente, a esposa marcou uma consulta para ela e Tomé também foi. A médica, depois de o ver, aconselhou-o a tratar-se.
Tomé não se sentia a mesma pessoa. «O que o meu colega no trabalho fazia em meia hora eu demorava uma e saía estourado. Na hora do almoço ia para o banco do jardim, não almoçava. As coisas não me rendiam e quando me enganava não tinha capacidade para recomeçar». Custou-lhe admitir, aos 51 anos, que estava doente. «É uma revolta grande saber só disto agora, porque podia ser mais feliz e não fui».
Não é normal admitirem que estão doentes. «Acordava de noite a transpirar sem motivo. Tive uma paralisia facial». E isso marcou-lhe o rosto. «Andava sempre de gravata e agora não. É um desleixo total. Desinteresso-me de tudo». Neste momento, não tem capacidade para desempenhar as funções. Está de Baixa. «Quase não escrevo». No grupo de tratamento, começou a desabafar «coisas que nunca disse, porque ninguém acredita no que a gente diz». Dorme um pouco melhor com os medicamentos, mas só adormece a ver televisão ou a ouvir música. «Mas se me enervar já não consigo dormir. Não me sinto seguro, sossegado, sou muito desconfiado, tenho medo de tudo».
Só agora pensa que talvez não seja como as outras pessoas. Tem uma filha «admirável», e uma mulher «que sempre me acompanhou, e que sofreu muito. Também anda com medicamentos psiquiátricos. Ela já via isto há muitos anos. Eu só agora estou a ver».

 

 

 

...Antes de ir para Angola, os princípios e valores de António Dias pautavam-se pela tolerância, compreensão, solidariedade. «Com a instrução que nos foi dada todos esses valores se modificaram por completo e fizemos coisas que se fossem pensadas, racionalizadas, possivelmente não as faríamos».
António é homem baixo, nervoso, a atrapalhar-se com as palavras, a querer estar calmo e a manter um nervosismo contínuo, a mover sempre as mãos uma na outra, a olhar-me de fugida e a colocar os olhos nas mãos ou no chão. Alferes miliciano, partiu em 1973 para Luanda. Pertencia a uma companhia de comandos...

 

Domingos Carvalho fará 54 anos em Agosto. Em 1972 foi para o Norte de Moçambique. Tenente miliciano, recorda momentos num olhar turvado, magoado a raios de sangue. A voz determinada, alta, forte, lembra ordens que teria de dar aos seus soldados. Homem robusto, não esconde essa fragilidade que o tempo lhe deixou. E os olhos são sempre quase água. Conta: «Fomos atacados numa picada. Ia na frente. Sairam três granadas de morteiro. Apercebemo-nos e deitamo-nos. Quando me levanto, para meu espanto, verifico que não tenho ninguém atrás de mim. Os meus homens tinham fugido para a mata. Estavam prevenidos, mas com a atrapalhação, o medo, fugiram. Chamei-os e consegui que se abrigassem nos rodados. Infelizmente, ficou-me lá um homem valente, o Américo, com 21 anos». As palavras páram. Um olhar longínquo, no fundo da sala branca, a tentar controlar-se.
Domingos Carvalho comeu meses seguidos com o prato na mão à espera de ouvir as saídas dos morteiros, das granadas de canhão sem recuo ou a rajada dos sentinelas dos postos de observação. Sempre à espera de algum ataque. «O contacto com o inimigo era sistemático. Não dormia, cochilava. Era saturante, terrivelmente difícil».
Após o 25 de Abril de 1974, aconteceu, em Lourenço Marques, a 7 de Setembro, algo terrível: «É inclassificável. Mataram indivíduos como se mata uma carneiro ou uma galinha. Os negros começaram a matar todos os brancos, a incendiar os carros. É marcante ver um carro com pessoas dentro a arder, mortas ali na altura. Ir a uma cantina e ver os donos esquartejados, a cantina pilhada». Domingos Carvalho não dormiu durante cinco dias. «Os jornais falavam em 90 mortos. Foram mais de 2 mil e só em Lourenço Marques. Matavam indiscriminadamente homens, mulheres e crianças. Assisti a tudo, pois andava a dispor homens para pôr termo a isso. Mataram à catanada, à facada, a tiro, incendiaram tudo. Os hospitais estavam superlotados, nos intervalos das camas havia cobertores para pôr os feridos. Cheguei a Portugal a 28 de Setembro».
Educado pelos pais nos princípios católicos, quando chegou tudo era estranho. «Estou sempre com um olho aberto e outro fechado. Tenho sonhos terríveis, é rara a semana, para não dizer que é todos os dias, que não sonho com a tropa, com a guerra, com essa violência. Quando me levanto da cama, com a conversa, com o viver, é mais fácil. É mais fácil viver acordado do que a dormir».
Casou e, mais tarde, divorciou-se. «Tive problemas terríveis. Pensava que no dia que desse um estalo numa mulher o casamento terminaria. Dei, e não foi uma vez. E nos meus filhos também lhes zupei algumas vezes. É terrível um indivíduo que vai fazer 54 anos ver para trás que pouca coisa tem de útil». Sente que se tivesse «sido mais condescendente, compreensivo, menos nervoso, mais calmo, «que hoje estaria casado e bem casado». Olha para a vida «e vejo dois filhos maravilhosos, uma neta. Podia ter uma família e não tenho».
Sabe que foi treinado para a violência. Se matou? Não sabe. Porque não era só um a atirar. Faziam vários mortos quando disparavam, mas não sabiam quem os matava. «Vai-se digerindo o tempo passado. Não é fácil viver. O viver aqui é hipócrita. Tem de se sorrir, levar a vida o mais alegre possível e conviver». E as noites? «Não se passam com facilidade. Acontecem os tais sonhos, as coisas que temos na mente voltam nos suores frios, quando se acorda de noite». E sempre nessa imagem do amigo morto. «É terrível, o Américo foi para o Céu».

 

 

 

...Com 22 anos, «no acto do dever não se pensava em nada. Avançava, só tinha o encaixe do dever, o que tinha de fazer, comandar e orientar, não tinha consciência do que estaria a fazer, pois se a tivesse não entraria numa coisa dessas».
Se peço para exemplificar momentos as palavras enevoam-se. «Vejo as barbaridades que fizemos. Quando fecho os olhos, à noite, vêm-me à memória coisas horrendas». António Dias sabe que não é fácil exemplificar. «Não eram atitudes só de defesa, também as tínhamos, mas atitudes de cair em cima das populações, massacres». A voz atrapalha-se. E repete: «Massacres, matamos, vimos mortos, pessoas completamente desfaceladas, ninguém as conseguia identificar. E, por vezes, de noite, acordo a sonhar com isso, outras a falar, a estrebuchar, a dar murros na cama. Quando fazíamos essas coisas não as pensavamos, qualquer coisa que despolotava em nós no momento e agíamos, dava prazer e avançávamos sem temor, sem medo, sem pensar no perigo».
António, quando regressa, está diferente...

 

A história de Manuel Gomes, 59 anos, divide-se em dois tempos. Para além de cumprir missão militar, fez uma comissão como polícia. Vamos por partes. Em 1963 Manuel Gomes foi para Angola. Passou muita fome, «sede então não se fala. Bebíamos água daqueles charcos, daquelas poças cheias de porcaria». Como atirador especial, estava sempre à frente da linha de combate. Conta que um dia, depois de rodearem uma aldeia, o comandante decidiu que todos disparariam metade das munições para ficarem com outras tantas para o regresso. «E metralhámos. Ta-ta-ta-ta, aquelas casas, aqueles inocentes, mulheres e crianças a saltarem para cima da gente, houve ali mortos com fartura. No fim, o comandante não quis ver o que existia. Retiramo-nos. Fizemos cenas que nunca mais se esquecem. Parece que estou a ver isso à minha frente, pessoas a saltar por cima da gente, as mulheres e as crianças a gritarem e nós a dispararmos».
Manuel Gomes era solteiro. Chegou e casou passados vinte dias. Organizou a vida e sentiu-se normal, diferença só o paludismo. Como queria melhorar a situação económica, foi para polícia. Concorreu em Braga, onde habita, e entrou. Mas ao fim de um ano transferiram-no para Caldas da Rainha onde esteve seis meses. Daí, para Lisboa. Passados três meses, ofereceu-se para ir para Angola com intenção de regressar a Braga o mais rapidamente possível, pois davam preferência aos que viessem de fora.
Em 1968 estava novamente em Luanda. Dormiu a primeira noite na capital e foi destacado para Leste. «Desmobilizavam 30 militares e substituiam por três polícias». Um dia, «de viagem até ao posto de comando, a 150 quilómetros, tivemos um ataque. Vinha a conduzir o jipe. Na emboscada, mataram os meus dois colegas. Deixei o jipe em andamento e saltei para um barranco. Quando caí ainda apontei a arma e ouvi os tipos a dizer falta um, mas não me lembro de mais nada. Tive a sorte de passar por ali um destacamento militar. Passados alguns dias houve outra emboscada. Mataram um indivíduo, cortaram-lhe a cabeça e deixaram uma carta. Fui levantar o corpo e vi a carta onde pediam desculpa, que tinha sido engano, mas a cabeça levaram-na e nunca mais apareceu».
Em 1970 Manuel Gomes regressou. Manuel, que era homem calmo, não se sentia o mesmo. «Era instável, agressivo. Não aceitava que me dessem ordens e, como autoridade, impunha respeito. De noite apareciam aqueles embriagados a tratarem-me mal, pegava no cacetete e tal... era rigoroso com os horários dos cafés. Quando me insultavam, agarrava nas pessoas e levava-as para a esquadra. Estava muito violento». Deixou a polícia.
Em casa, eram ameaças de divórcio. Manuel Gomes vê o seu mundo ruir. Chegou a ser violento com a esposa e «nem merecia isso. Ameaçou com o divórcio tantas vezes mas, coitada, lá vai aguentando e eu também. E com a vergonha nunca cheguei à conclusão de fazer o divórcio, e com esta idade também não o quero fazer». De noite, dorme duas a três horas, «nunca mais. Cheguei a andar em psiquiatria. Davam-me uns comprimidos que me punham a dormir».
Sente que é difícil compreender tudo. «A mulher passou muito e passa, já passou por pior, coitada, mas quando me chateia ainda continua a levar aqueles repelões. Arrependo-me logo do que faço, mas está feito». Manuel traz gravado na memória os momentos em que dispararam contra inocentes, o abandonar os locais sem ver o que lá estava e o corte de cabeça desse seu colega. «São imagens que nunca esqueço. Estar a sonhar, a chorar, a gritar e as pessoas ao meu lado a ouvirem». Manuel Gomes, calmo, forte, bem parecido, de óculos, como se a violência que esconde não a mostrasse o corpo, tem, como todos, esse olhar raiado a sangue.

 

 

...Dois anos em Angola moldaram, para pior, António Dias. Vem menos tolerante, mais agressivo e à miníma coisa extravasa. Aperta as mãos uma na outra. Diz que não era assim. «São reflexos do estado em que a pessoa está e em que às vezes ficamos quando contamos coisas que nos dói cá dentro e nos revoltam».
Chegou, continuou a trabalhar na área financeira de uma empresa, conseguiu integrar-se no grupo, pois tinham estado com ele nas ex-colónias, eram pessoas da mesma idade e contavam uns aos outros «as coisas menos más, aquilo que nos convinha, pois não fomos para África fazer turismo».
Sentindo-se mais nervoso, menos compreensivo, violento às vezes, achou que qualquer coisa estava mal. «Os familiares que me rodeavam e me conheciam, achavam que não estava bem, a minha violência não era normal».
Casou passado alguns anos. Andara em tratamentos de neurologia e psiquiatria. Diz que atenuaram «a coisa um bocadinho, a pessoa fica mais calma, fiz sessões de psicoterapia individual e de grupo e isso ajudou-me um pouco». A esposa ajudou-o imenso e «nunca fui violento com ela, tentei sempre controlar. Ela era uma pessoa compreensiva, fazia um grande esforço para não a magoar»...

 

Alto, forte, não se fica indiferente ao aspecto físico de José Rosa. Funcionário público, foi para o Norte de Angola em 1973, numa companhia independente de caçadores, como alferes. Foi em rendição individual, isto é, morria um, ía outro para o lugar deixado em aberto.
Aqui, teve treinos debaixo de fogo real. Por isso, a calma aparente é mantida «até me despertarem alguns reflexos condicionados para que fui ensinado e treinado. Fomos preparados como cãezinhos, com determinado estímulo tínhamos de reagir de determinada forma. Em cenários de guerra efectivos sentiamo-nos bem, avançávamos, parecíamos outros». Aos 21 anos, José Rosa estava apto para matar com as mãos «nos pontos fracos, ensinaram-me a torturar. Não é norma numa sociedade civilizada. Quando aqui chegamos, nunca houve a preocupação de nos prepararem para a vida civil. Viemos cheios de traumas, com pressões, matamos pessoas e quando chegamos cá fomos abandonados».
Não é fácil para José contar o que lá viveu. «As coisas de que não nos orgulhámos não contámos». Chegou, retomou o trabalho, mas a diplomacia anterior tornou-se em agressividade. «Ainda me lembro de um contribuinte me chamar aldrabão. Agarrei-lhe no pescoço e pedi para ele repetir. Não repetiu nem o podia fazer porque tinha o papo apertado. Isto numa repartição de finanças, são situações que não podem acontecer. Andei à pancada uma série de vezes por coisas sem interesse nenhum». Mas houve outras coisas que mudaram. Para além de ser mais agressivo, José Rosa, esquece-se de tudo, não se consegue concentrar. E nota outra diferença: «Antes de ir não bebia, quando cheguei bebia».
São todas estas modificações que o revoltam. «Prepararam-nos para sermos assassinos. Só não somos criminosos porque estávamos a defender a Pátria, mas fazíamos mortos». Nesta revolta, José teve uma adaptação difícil, foi sempre «andando para a frente, mas não me sinto bem». Pesadelos diz que não tem. «É mais um sentimento de culpa». Orgulha-se de ter sido convidado para a festa da circuncisão e para a das virgens. Era considerado um branco justo. Tentava resolver os problemas com harmonia, mas sentia-me lesado por estar automatizado para outras coisas: ou matas ou morres».
Andou até ao dia em que bloqueou. Não conseguia fazer nada. «Já não arrancava mais e vim tratar-me. Fui perdendo capacidade de domínio sobre as situações. Parece que as pilhas se gastaram. Estou a precisar de as carregar». A tratar-se, a sair do consultório, pegará nos óculos pretos para esconder esse brilho que leva no olhar.

 

 

 

...«Não sentimos orgulho de muitas coisas». António, tem situações que não consegue ultrapassar. Habita a 100 metros dos bombeiros. Quando a sirene toca «recordo-me de uma situação de ataque. Estávamos no aquartelamento e tocou uma sirene idêntica para que as pessoas tomassem as suas posições, fossem para as trincheiras, pegassem nas armas e se pusessem em posição de defesa. Ainda hoje, quando ouço a sirene tocar, regresso ao cenário de guerra. A minha tentativa é deitar no chão os miúdos e a minha mulher». Para ultrapassar esse problema, sempre que está em casa por volta do meio-dia, hora do som, põe os headphones nos ouvidos com música muito alta. «Se ouvisse a sirene acontecia a mesma coisa. Atirava-me para o chão e todo eu tremo».
Quando a sirene estagna, António fica parado, a «minha mulher tenta acalmar-me. Tenho consciência de ter feito algo para defender todos os que me rodeiam. Algo que não sou capaz de controlar, muito mais forte do que eu, tinha de o fazer, mesmo que pudesse pensar que não devia ser assim»...

 

«Guerra é guerra. A gente passou lá maus bocados». Resume José Silva os anos de 1970/71/72. Com 53 anos, o período que passou em Angola marcou-o profundamente. Até problemas de pele «me apareceram derivados àquelas águas». E mostra os braços vermelhos, escamados.
José Silva era homem calmo. Agora, não é. Um olhar castanho fugidio, sempre agitado, move os braços de um lado para o outro como tivesse de se mover para explicar as coisas, e os gestos dizem mais do que as palavras. «Durmo mal, o sistema nervoso é muito, sinto a cabeça cansada. Fui sempre um homem saudável. Há meia dúzia de anos tem sido cada vez pior, qualquer coisa me enerva».
Quando chegou lembrava-se de tudo. Habituado ao som da corneta para acordar, perguntava à mãe: «Já estou cá? Estava sempre a ver se vinha alguma coisa. Julgava que estava lá fora, só não ouvia tiros, andava sempre desconfiado. Não dormia com a arma ao lado porque não a tinha». Como atirador, José Silva recorda a primeira incursão pelo mato. «Íamos nos camiões, empilhados quase como cães, todos juntos. Quando ouvimos um tiro, era o primeiro dia, atiramo-nos para o chão. Era tirar um carregador e meter outro. O capim à minha frente ficou todo limpinho». Nesse dia seria ferido um soldado, «talvez por algum de nós com a atrapalhação, com um tiro nos testículos e a parte da tomatada ficou toda arrumada, mas não morreu».
De tudo, o que custa a José Silva, é ver desaparecer um amigo. E essa imagem nunca mais esquece. «Aquele amigo que me diz:
— Deixas-me morrer aqui?
Ele levou um tiro na cabeça, no meio do caco, e saiu-lhe a parte de trás toda e caiu mesmo ao meu lado.
— Deixas-me morrer aqui?
Isso é que me chocou. Ele só fez ahhh... e morreu. Aquele último supiro, isso custa, vivo sempre com isso».

 

...Para António, antes era mais difícil adormecer. Agora adormece, embora tenha pesadelos com muita frequência. Foi num desses pesadelos que, quando acordou, somente se lembrava do que viveu até 1974. Estávamos em 2001 e António tinha só o tempo de guerra na sua memória. «À minha mulher tratava-a por senhora, os meus filhos eram os meninos. Só me lembrava da tropa e queria ir para lá. Tiveram de me levar para o Hospital de Santa Maria, Lisboa, para ser visto, mas entendia tudo isso como estivesse em Angola e tivesse sofrido qualquer ataque. Pensava que teria sido evacuado para o continente. Quando vinha na ambulância sentia-me como estivesse no avião. Até comentava com um dos bombeiros, quando chegamos ao hospital, que sim senhor, o piloto fez uma boa aterragem, nem se sentiu nada».
Durante mais ou menos um mês, António foi um estranho no seu mundo. Não se reconhecia no espaço onde vivia. «Tudo o que era novo, não conhecia. Conhecia as coisas, mas não como estavam. Fui melhorando gradualmente. António continua com falhas de memória. Nos sonhos, «acordo sempre a falar em guerra, mata e faz, esconde-te, cuidado, olha para trás, deita-te, agora ataca, vamos em grupo, vamos em três. Estou a viver o que vivi e, às vezes, estou mesmo acordado, nem sequer me sinto no lapso de sonambulismo. A minha mulher levanta-se, não me desperta, tenta-me acalmar acariciando-me um pouco mais, e lentamente volto. Sossego e, por momentos, fico sem saber onde estou, mas regresso ao presente mais rapidamente do que antigamente»...

 

Na Guiné, Rodrigo — o nome é fictício — esteve de 1965 a 1967. Vinte e um meses. Sem referir pormenores, «porque fico muito deprimido, chego a andar dois ou três dias doente», Rodrigo fala como um nó na garganta e no peito não deixassem sair as palavras. Magro, a voz a tremer, um olhar distante e triste por detrás dos óculos, tenta que as palavras saiam. Mas amontoam-se na emoção e ficam confusas.
Sargento miliciano, Rodrigo chegou a estar mais de 12 horas debaixo de fogo. «Hoje sonhei que estive lá outra vez e fico revoltado, porque já estive tantas vezes, vou para o mesmo sítio, e há outros que ainda não foram vez nenhuma». Conta: «Numa emboscada tivemos 15 mortos e vinte feridos tudo à bazucada. Na semana seguinte tivemos mais cinco mortos e quinze feridos. Das últimas operações que fiz nem sei quantos morreram. Até ao posto do médico era um disparate de corpos espalhados pelo chão fora».
Agora, «não consigo dormir. Estremeço com qualquer barulho, tenho a tendência de deitar a mão ao lado para pegar na arma. Esse hábito fica. Quando me deito, aquilo vem tudo. Durante o dia uma pessoa pode-se irritar, enervar, isolar, mas de noite é pior».
Apesar de agressivo, nunca tocou na esposa. «Sei que é ela que me tem segurado, sei que me faz falta, mas verbalmente posso ser violento, quando a cabeça está quente não há quem nos pare». Diz que «talvez fossemos mais terroristas do que eles. Criámos uma prisão de arame farpado, parecia uma gaiola, e atirávamos para lá uma barra de ferro. Eles estavam como a sardinha na canastra, e a barra caía nas costas de um, eles sacudiam e a barra dava assim não sei quantas voltas à gaiola. Mesmo nos interrogatórios eram torturados, descargas eléctricas nos testículos, eram pendurados por um só pé. De manhã os prisioneiros apareciam muitas vezes mortos; alguém tinha de os matar».
No tempo que passou na Guiné nunca sentiu medo. Só para o fim, quando falta um mês, duas semanas para o regresso. «Quando aqui cheguei vinha normal, mas isto foi-se agravando». Mas quando lá cheguei, na deslocação para o mato, «tivemos logo baixas, nunca tinha visto ninguém morto à minha frente...». Começou a entalar-se, a voz não sai, «mexe mesmo, esta angústia, não consigo dizer mais nada, vêm as lágrimas aos olhos».

 

 

 

...Durante o período esquecido do seu tempo, António perdia-se. Para chegar a casa tinha de perguntar pela rua onde morava. «Para protecção, a minha mulher fechava as portas à chave». Numa noite, António levantou-se e andava a meter, com uma lanterna pequenina para não acordar a esposa, coisas num saco para sair de casa. «Ia fugir para o mato. Estava lúcido. Sentia que tinha de fugir para Angola, estava como um preso em casa, não conhecia as pessoas, não conhecia nada e estava ali. Pensava: tenho uma missão a cumprir, não posso ficar aqui porque depois sou punido. As pessoas diziam-me que não, mas eu não entendia assim e achava que tinha um dever a cumprir, ir para Angola». Sem as chaves nas portas, António decidiu sair pela janela de um segundo andar. Teve a sorte da esposa acordar e lhe pedir calma. «Respondi-lhe: Ou voltas de novo a por as chaves nas portas, ou salto já daqui. Irritava-me estar fechado, fazia-me lembrar outros espisódios, pois estive na prisão política seis meses antes de ir para a guerra».
Com as melhoras de António, as chaves voltaram às portas. «Não tive mais essa necessidade de fugir. Sinto que vou melhorando. Estarmos aqui todos, comungarmos das situações, levou-me a ultrapassar a fase do esquecimento, hoje estou melhor». Olha-me, treme. Com dois filhos, um de 17 e outro de 11, mantém «na família, na esposa e nos filhos, a base da vida».

 

 

 

Tenho medo

As primeiras palavras trazem lágrimas. Teresa — trocámos o nome — parece a pessoa mais simpática do mundo. Veste de negro, os cabelos são brancos, tem um olhar muito triste e as palavras trazem uma amargura difícil de descrever. A sua vida revolta pelo silêncio que ela transporta, pela continuidade repetida de acções violentas que não têm fim. Como este, há muitos outros casos escondidos e que nunca se vão conhecer.
Teresa casou em 1970. O seu marido era um «rapaz bom, carinhoso, meiguinho, sempre na borga, meu amigo, trabalhador e respeitado». Antes de ir para Angola, deixou uma filha com seis meses. «Quando veio da guerra deu-lhe uma coça tão grande, um pontapé, que ela foi ao ar e caiu no chão».
O ex-combatente dormia com a faca do mato debaixo do travesseiro, mas Teresa escondeu-a. E revolta-se contra a esposa: «Mato-te bandida, insultou-me do piorio. Não era assim. Falo para ele de forma meiga. Ele olha sempre para mim com aqueles olhos maus, e diz que me quer esganar».
Teresa dorme ao lado do marido. «Não durmo nada, tenho medo». Pelo Natal, o homem desapareceu durante dez dias. «Não sei onde está. Depois, chega muito porco, a cheirar mal, anda sempre com facas. Olha-me com aqueles olhos esgazeados e diz eu mato-te». Neste sofrimento constante, Teresa suporta a vida como se ela tivesse de ser assim. Com a reforma do marido que não chega para os medicamentos, Teresa tem de trabalhar para sustentar a casa com a ajuda da sogra e do pai. Mas nunca pensou em deixá-lo: «Tenho muita peninha dele, é pai dos meus filhos, gosto muito dele e nunca pensei em o abandonar. Não lhe falto com nadinha. Prefiro não comprar certas coisas para não lhe faltar com a medicação, nem com o comer nem com nada, nem a ele nem aos filhos».
A filha, de trinta anos, está casada. O filho, de 15, tudo vê. Diz que «qualquer dia desaparece». Os olhos de Teresa voltam a toldar-se. As lágrimas são constantes. «Não durmo, ando sempre a esconder as facas, ele tem sempre aquele olhar esgazeado, não se lava. Muitas vezes parece que cheira a trampa pela boca. Cada vez pior. Faz-me a vida negra». Para atenuar este pesadelo, como ainda encontrasse no marido qualquer coisa de bom, Teresa desvaloriza algumas atitudes e diz que ele  gosta dela. Mas as palavras fogem: «De noite acorda muito estacado, põe-me a mão no pescoço, digo-lhe para ter calma e ligo logo o 112, porque vejo que não está bem. Ele não sabe aquilo que se passa na cabeça dele. Está sempre revoltado. Fala e canta de noite».
Com medo dele, «a minha sogra dorme no sofá para o acalmar um bocadinho. Ele diz que a cabeça dá voltas e mais voltas, parece que estoura. Diz que a coisa que mais adora é a mulher e os filhos, mas quando se revolta não se lembra de nada disso. Já foi duas vezes ter comigo à casa de banho com uma faca. Sou tão amiga dele, não merecia o que estou a passar».
As histórias são infindáveis. O mundo de Teresa é um pesadelo. «De noite está sempre sobressaltado e sempre aos socos à gente. Depois está sempre: acende-me a luz, não apagues a televisão. Parece que come toda a gente com o olhar. Passo uma verde e uma madura com ele». Embora muitas colegas do trabalho digam a Teresa que se passassem metade já o tinham deixado, Teresa continua no sofrimento. «Até me pode matar, já tenho levado porrada. Quantas vezes já apanhei... e tem as mãos levezinhas!».
Teresa tem em casa o «inferno. Vivo num desespero constante». Mas não toma nada para dormir. «Tenho medo de adormecer, ele pode-me matar, estou sempre em alerta. Quando o ouço ressonar desligo a televisão. Mas ele começa logo a resmungar e a assobiar e diz para acender a luz do candeeiro. Mesmo a tomar calmantes está sempre atento. Continuo a sofrer até quando Deus Nosso Senhor quiser». Mas talvez Deus não queira nada disso. «A própria medicação tira-lhe a potência toda e ele é agressivo cada vez mais. Faço tudo por ele, mas se ele não tem força, se me massacra, e não pode, a culpa não é minha. Ele diz que não tenho amor por ele, que não faço tudo».
Teresa tem de ir trabalhar. Entra às duas da tarde, a hora aproxima-se e os transportes são demorados. «Tenho ali uma senhora cruz. Da última vez que o vieram buscar, com três homens a segurá-lo, ele olhava para mim e dizia: Vou-te matar, vou-te f..., vou-te fazer assim ao pescoço...». Teresa a chorar...

Publicado bragadistrito às 15:00
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