Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008
Nascer antes do tempo...

Neonatologia
O segundo nascimento

 

A realidade dos prematuros é pouco conhecida, mas cada vez mais há um maior investimento humano e material nestas crianças que decidem vir ao mundo precocemente. Contamos as histórias do Daniel, do Miguel, da Inês e da Bárbara. E, em silêncio, na penumbra, vamos olhar o Serviço de Neonatologia do Hospital S. Marcos, em Braga.

      

Ao fim da tarde, depois de um dia calmo, Carla decidiu repousar um pouco. Os dias de Fevereiro estavam frios e a chuva começara a cair suavemente. Talvez o sonho de água venha do céu. Mas quando acordou, sobressaltada, encharcada, a partir desse momento o mundo começaria a ser diferente…

     

Maria Alcinda segura o Miguel com ternura. Olha-o, encosta-o ao seu corpo e deixa que ele permaneça assim alguns momentos. O Miguel é o segundo filho de Alcinda. O primeiro já tem 12 anos, mas o casal decidiu ter outro filho. Tentaram. Teve um aborto aos 37 anos e, aos 39, engravidou do Miguel. «Foi um filho desejado».
Alcinda sempre imaginou uma gravidez normal. Contudo, as coisas não foram como os desejos. Logo no início foi obrigada a estar quase um mês de repouso, mas «por amor nada cansa». Depois, pôde fazer a vida normal, claro que com alguns cuidados. «Como o sentia muito no fundo da barriga e tinha de andar sempre a correr para a casa-de-banho, quando vim à consulta falei disso à médica. E ela, para me tranquilizar, fez uma ecografia e disse que estava tudo bem. A 28 de Dezembro, quando fui à casa-de-banho, reparei que me saiu muito líquido. E antes de jantar saiu novamente. Quando liguei à médica ela disse para ir logo para o hospital».
Nesse dia Maria Alcinda ficou internada. Passou o Ano Novo no hospital e, a 3 de Janeiro, teve as primeiras contracções. «Às vezes nem gosto de falar destas coisas». Medicada, sentia que as dores iam aumentando, associando essas dores aos intestinos. Com as contracções, o parto estava iminente. Tudo apontava para um parto normal, mas as coisas complicaram-se, pois vários obstretas acharam que o bebé tinha o cordão à volta do pescoço. Foi decidido realizar uma cesariana de urgência e, mesmo antes de Alcinda chegar ao bloco operatório, ainda na maca, nos corredores do hospital, o Miguel começa a nascer. «Ele só ficou preso pelos pés. Quase nasceu por ele». Tinha 27 semanas e pesava 1,020 kg. Estávamos a 5 de Janeiro. «Estava tranquila, olhava para aquelas luzes todas…».
Depois, tudo foi diferente. Alcinda viu o Miguel por momentos logo a seguir ao parto. Mas só o voltaria a ver no dia 7, nos cuidados intensivos da maternidade Júlio Dinis, no Porto. Pegaria no Miguel o pai no dia 6, assim, encostado ao corpo. Para Alcinda «foi muito duro. Ele baixou para os 0,890 kg. Esteve lá até 14 de Fevereiro. Fui lá todos os dias durante esse tempo».
Alcinda é de Moure, Vila Verde. Fazer a viagem diariamente, o cansaço, o pequeno Miguel, deixa marcas. «O meu primeiro filho nasceu com 3,300 kg. Mas não fiquei impressionada com o Miguel. Apesar de ser muito pequenino, achei que era um bebé muito composto, não se notavam os ossos, era perfeitinho, muito moreno. Fiquei feliz por saber que ele tinha conseguido sobreviver, foi uma alegria. Claro que tenho medo de que alguma coisa corra mal».
Mas nada correrá mal. Miguel dorme no pequeno berço no Serviço de Neonatologia do Hospital S. Marcos. «Mas vê-lo nos cuidados intensivos assustou e custou muito. E a separação é dolorosa. Tomei muita medicação. Ele era aspirado de 3 em 3 horas, estava com oxigénio, era picado, foi muito complicado». Agora, o Miguel está a crescer e a ganhar forças e já pesa perto de dois quilos e meio. Ainda internado, há pequenas sombras que assustam os pais. Mas dessas não vamos falar. «Estou feliz porque ele passou uma barreira grande e estou à espera do momento em que ele irá para casa. Eles são lutadores, lutam pela vida».
Miguel sossegado, a dormir embrulhado nos lençóis dos pequenos ursinhos do hospital, no som de alarmes que controlam a vida dos bebés. Pela vontade, o Miguel, o campeão, como lhe chamaram os médicos, vai ultrapassar as próximas barreiras e dará à mãe, ao pai e ao irmão, que lhe escolheu o nome, o sorriso e a alegria dos ursinhos com que dorme todos os dias.

 

…Mais desejado o Daniel não poderia ser. A gravidez, no início um pouco complicada, com repouso absoluto durante um mês, tornou-se uma gravidez normalíssima, apesar dos cuidados devidos que seria necessário ter. Carla, encantada com a barriga a crescer, em forma de Lua, embalava Daniel com estrelas mágicas e cantigas de sonho. Mas o rapaz era mexido, irrequieto. Devia fazer do ventre da mãe um parque de diversões. Nem as baladas desafinadas do pai o acalmavam. Talvez ainda o fizessem mover mais.
Assim, nesse fim de tarde de 22 de Fevereiro, Daniel devia ter rebentado a sua bolsa da vida com os seus movimentos, com as suas traquinices, com os seus sonhos. Tinha 32 semanas e devia continuar no mundo líquido. Sem perder tempo, Carla foi para o hospital e, na noite de 23, foi operada de urgência para Daniel sair. Apesar da pressa do rapaz, no parto, quando sentiu o frio e o mundo que o esperava, talvez se tenha arrependido, tornando o momento complicado para médicos e enfermeiros.
Nessa noite é internado no Serviço de Neonatologia do Hospital S. Marcos. De manhã, quando o pai o vai ver, o pequeno Daniel, com 1,700 kg., que baixaria para um 1,495 kg., estava ligado ao oxigénio, com vários sensores no corpo. «Nunca tinha visto ser tão pequeno. Era meu filho. Senti um aperto no coração, comecei a transpirar e sei que alguém falou comigo, não sei o quê nem quem. Sentei-me e fiquei a olhar o pequeno rapaz. Ele estava ali, vivo, com uma respiração estranha, todos os ossos do tórax salientes, magro, aquecido por luzes. A sensação é de alegria e de medo pela fragilidade da criança. Tudo se pensa, mas ali o mundo não tem conclusões».
O Daniel respirava. Sem as músicas da mãe, o pai também não conseguiria cantar. Carla também estava internada. E o pai, entre os dois, sentia o mundo rarefeito de ar…

 

A Inês ainda depende do ventinho. Sorri muito e quando se coloca a tetina na boca sossega logo. Está gordinha, engraçada, com um rosto redondo, muito branco, encantador.
Julieta Ferreira, de 40 anos, tem mais dois filhos. Um rapaz de 18 anos e uma menina de 14. «A Inês aconteceu. Tinha um fibromioma e estava em lista de espera para ser operada, mas fiquei grávida sem contar. Quando descobri, com uma ameaça de aborto, estava grávida de 3 meses. Fui internada e depois de ter Alta estive em casa em repouso absoluto, nem à casa-de-banho podia ir».
Desde o início que Julieta sabia que Inês seria prematura. Nasceu com 29 semanas devido a uma ruptura de bolsa. Foi assim: Depois de observada, Julieta ficou logo internada e foi transferida para o Hospital de Matosinhos antes que Inês nascesse. Em Matosinhos esteve dois dias e, depois, foi transferida para o Hospital de Guimarães. Chegou às três horas da tarde a Guimarães no dia 24 de Dezembro. Às quatro e vinte, Inês tinha nascido. A prenda de Natal antecipara-se um pouco. «Estava preparada para um bebé prematuro, mas não tanto. Ela tão pequenina. Nasceu com 1,200 kg. e depois baixou para 1,000 kg. E o que me custou a aceitar foi o oxigénio, pois as outras crianças largavam-no e ela estava sempre depende dele».
Em Guimarães, durante três semanas, Julieta nunca saiu de perto da filha. «Mas como sou de Braga e tenho mais dois filhos, queria vir para Braga. Estive lá noite e dia, foi muito pesado. E passa-se um dia e passa-se outro e a Inês continuava na mesma. Era frustrante. Tem o problema da respiração. Há pouco tempo comecei a conformar-me com isso, mas que foi difícil aceitar foi, porque estava à espera de um bebé que se desenvolvesse como os outros e ela está assim um bocadinho mais complicada».
É desse ventinho de que Inês depende. Sem o ar, as saturações de oxigénio no sangue baixam repentinamente. Inês, nesses momentos, parece um peixinho fora de água à procura de vida, do mar. Mas este facto é normal em bebés que nasceram antes do tempo. Em bebés prematuros pode haver um atraso no desenvolvimento dos pulmões e esse atraso, com o tempo, é superado. Mas não se sabe quando e, na sua respiração de vaga de mar, Inês silencia-se no vento da maresia.
Para Julieta, quando viu pela primeira vez Inês, o impacto foi «assustador. Quando nasce um bebé normal eles já são pequeninos, mas como a Inês… porque vê-se uma coisa tão pequena que queremos tocar mas nem se sabe aonde nem como lhe pegar. É muito confuso porque é muito pequenina e tinha a sensação dela nos poder escorregar pelas mãos, e isso era assustador. Depois começa-se a pegar uma vez, e outra… e agora já tem mais de três quilos. Mas é um desgaste muito grande. Tive de largar tudo para me dedicar somente à minha filha. E enquanto ela não largar o oxigénio, enquanto não for uma menina estável para a entregar a uma ama ou pôr num colégio, não penso em trabalhar tão cedo».
Brevemente, sabe Julieta que Inês irá para casa. Talvez ainda com o ventinho. «Será tratada por mim em casa com muito amor. Não foi programada mas foi muito desejada. Foi um susto muito grande, mas já passou, já está a compensar. Claro que Inês é diferente dos meus outros dois filhos. Dou tudo por eles, mas esta é muito especial. E custa muita sair daqui e chegar a casa e perguntar sempre se estará bem. Sei que está bem, mas não há nada como os ter em casa».
E, acompanhada do vento da maré, Inês já deve estar a dormir sossegadamente em casa. Sabe que um dia não mais precisará desse ar, tudo será normal. Nessa altura, olhar o mar, sentir o vento, terá o encanto dos sons para Inês.

 

…De cadeira de rodas, Carla veria Daniel ligado àquela confusa maquinaria. Habituada aos sons, deixou o olhar repousar nele. «Sempre o amei. Era o meu pequenino, o meu menino. De certeza que tudo correria bem. Ele sempre foi muito irrequieto, talvez tenha querido vir cá para fora mais cedo. Vou tê-lo comigo antes dois meses».
Carla mantém o olhar nele. Toca-lhe. Ali o mundo pára, torna-se lento, em movimentos de serenidade. Sabe que terá de permanecer no Serviço de Neonatologia durante longo período. De Daniel não sabe o que pensa. «O meu menino. Sempre disse que seria o meu pequenino, e é mesmo pequenino. Já tinha as malas feitas, as minhas e as dele, desde o sexto mês. Estive sempre pronta para que me pregasse uma partida».
Coloca-lhe a mão suavemente no pequeno rosto, canta-lhe uma música e diz, de olhos brilhantes, que «é um anjo. As estrelas mágicas dos anjos estarão sempre com ele. É nisso que todos aqui temos de acreditar».
Daniel respira ofegantemente. Estará ligado ao oxigénio poucos dias e passará para uma incubadora enquanto cresce…

 

A Bárbara foi planeada ao pormenor. A única coisa que não foi planeada foi ela ter nascido antes do tempo. «Quando a minha esposa me ligou, no dia 3 de Março, a dizer que a Bárbara ia nascer, foi uma surpresa completa. Provavelmente, por causa da hipertensão que a minha esposa estava a ter no momento, a placenta envelheceu muito rapidamente e a bebé estava em sofrimento». Rui Costa, o pai, de 34 anos, nunca imaginou que isto pudesse acontecer.
Assim, no dia 3 de Março, ao fim da tarde, Bárbara nasceu. Tinha 34 semanas, mas por volta das 32 tinha deixado de se alimentar, apesar dos órgãos principais se manterem em funcionamento. «Tive uma gravidez sem enjoos, nunca me senti mal, nunca deixamos de fazer nada, esteve sempre tudo muito bem. E, embora estivéssemos a planear, descobri pelos 3 meses que estava grávida». Na verdade, pouco mais de 4 meses Vânia Barbosa pôde sentir a gravidez.
Para Rui Costa «o primeiro impacto foi terrível. Estava à espera de tudo, mas nunca pensei que isto me pudesse acontecer, nem estava minimamente preparado. Apanhei o maior choque da minha vida. Foi o impacto de ver uma criança assim, estava muito assustado». Bárbara não tinha 1,500 kg. quando nasceu e perdeu peso até 1,265 kg. Agora, já a recuperar, na incubadora, tem por companheiras duas meninas, duas Inês. «Emocionalmente põe uma pessoa de rastos. Mas agora perdeu a cara de sofrimento que tinha, tem uma cara de satisfação. As pessoas que trabalham neste serviço são de uma sensibilidade e humanidade fantástica, a paz que eles nos passam…». Bárbara é comprida, dedos de mãos e pés longos, como a anunciar que crescerá rapidamente.
Apesar de explicarem que todos os tratamentos são normais, «para nós nada é normal. Eles são tão frágeis. O meu marido, entre o serviço de Obstetrícia e Neonatologia, dizia-me sempre que estava tudo bem». Vânia, depois da cesariana de urgência, tinha de estar em repouso. Rui movia-se entre os serviços. «Acredito que tudo acontece por alguma razão. E alguma coisa mudou em mim, não só pela paternidade, é o primeiro filho, mas saio daqui uma pessoa diferente. Agora ando ao ritmo da Bárbara e o que quero é que esteja tudo bem quando ela sair daqui, demore o tempo que demorar».
E enquanto Bárbara dorme aquecida na incubadora, Vânia e Rui vão repousar. «O que nos acalma quando saímos daqui à noite é a confiança que temos nos profissionais». Logo que chegue a casa, Vânia pegará no telefone e ligará para o serviço, só para saber se está tudo bem. De certeza que Bárbara sabe que é a mãe a telefonar, mas ainda nada pode dizer. Dorme nos múltiplos sons que nunca saem da cabeça à mãe. «Agora é dar tempo ao tempo, não está em mim, mas está a crescer».

 

…Depois é uma questão de tempo. «Tudo gira em função dele. Mudamos tudo por ele. Ele é frágil e somos nós que temos de o proteger». Carla muda-lhe a fralda. Daniel, ainda com a sonda na boca, um fino tudo pelo qual é alimentado, tornou-se sossegado. Na incubadora, com humidade e temperatura constantes, permanece a crescer no mundo.
Sem o soro, sem os múltiplos sensores, hoje Daniel tomou banho fora da incubadora. Chorou e, pela primeira vez, agarra-se à mama da mãe. Quando Carla o coloca novamente na incubadora para aquecer, reparo que, de olhos bem abertos, Daniel sorri para Inês, mesmo ali ao lado, não numa incubadora, no berço com o cobertor dos ursinhos. Não reparei se Inês sorriu.
«Temos de dar tempo ao tempo, levar estes momentos com calma. Custou-me imenso deixá-lo cá durante as noites. Fiquei aqui três noites seguidas, mas era extenuante e não tinha depois resistência para olhar por ele durante o dia. Ele está bem. Tem de crescer, ganhar peso, ter força. Os meus sonhos são sempre com ele. Até de noite penso que o tenho a meu lado e que o estou a amamentar. Brevemente irá para casa e sei que terei de ter cuidados redobrados com ele».
De noite, Daniel, embalado pelas músicas da mãe e pelas estrelas mágicas dos anjos que ela diz existirem, vai dormindo e, quando acorda, deita o olho para ver Inês. E ambos adormecem em vagas de mar, em estrelas de anjos, na magia do tempo que adormece todos os meninos.

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